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Mercado

A próxima transformação do mercado jurídico não é a IA, mas o hábito dos clientes de consumir serviços jurídicos

Sente-se #1 · 4 min de leitura Série O cliente mudou · Ep. 1
A Grande Onda de Kanagawa, de Hokusai, em duotone azul: uma onda enorme se ergue sobre três barcos, com o monte Fuji pequeno ao fundo.
Por Equipe Follaw UpOutubro de 2026

Na gravura de Hokusai, o monte Fuji aparece pequeno, ao fundo. É para ele que todo mundo olha. Quem mexe com o barco é a onda. Na advocacia, a IA é o Fuji; a onda é o hábito novo do cliente. Katsushika Hokusai, A Grande Onda de Kanagawa, c. 1830–32 · domínio público

Para Bjarne P. Tellmann, quem vai redesenhar a advocacia não é a máquina: é o cliente que se acostumou com ela. A hora faturável sente primeiro. O julgamento humano, segundo ele, fica.

Resumo para quem tem audiência às 10h
  • A maior mudança que a IA traz para a advocacia começa no cliente: ele passa a esperar eficiência, previsibilidade, tecnologia e valor que dê para medir, não só horas de trabalho.
  • No Brasil, isso pesa mais: cerca de 1 em cada 4 advogados exerce outra atividade e a captação ativa de clientes é vedada. Reter e ser indicado vira necessidade.
  • A hora faturável não some de imediato, mas passa a dividir espaço com honorários por valor, preço fixo, assinatura e remuneração por etapa.
  • Julgamento, confiança e responsabilidade continuam humanos. A pergunta passa a ser como o cliente enxerga esse valor.

Quando pensamos na era da inteligência artificial, não estamos falando de algo que apenas tornou os serviços jurídicos mais rápidos. Ela está mudando também a expectativa dos clientes em relação a esses serviços: não só sobre o trabalho feito, mas sobre a maneira como o escritório o entrega e o apresenta.

A provocação é de Bjarne P. Tellmann, em um trecho de seu livro Law in the Era of AI: Clients, Firms, and the Future of the Legal Industry (Wiley, 2026), divulgado pelo Center on the Legal Profession, da Harvard Law School, e promete se tornar um debate cada vez mais forte quando pensamos no futuro do mercado jurídico.

A principal mudança começa do lado do cliente

A principal mudança trazida pela IA aos escritórios de advocacia não está nas novas ferramentas, que prometem acelerar as atividades rotineiras, liberar mais tempo produtivo ou reduzir o custo com mão de obra. O principal impacto está na maneira como o cliente consome serviços jurídicos. Em um mundo em que a IA promete acelerar tudo, o advogado passa a lidar também com um cliente cada vez mais ansioso, que aprendeu a consumir tudo em ritmo de fast-food.

O balcão mudou de lugar. Quem pede comida em dois toques e acompanha a entrega no mapa passa a esperar o mesmo de qualquer serviço: pedido, previsão e acompanhamento. Inclusive do escritório.

Na realidade brasileira, isso pesa ainda mais. O país tem um dos maiores números de advogados do mundo, e não é raro que um advogado mantenha o emprego em um escritório e uma segunda ocupação para conseguir pagar as contas. Segundo o Perfil ADV, estudo da OAB Nacional com a FGV divulgado em 2024, cerca de um em cada quatro advogados exerce outra atividade profissional além da advocacia. Nesse cenário, reter clientes e multiplicá-los por meio de indicações se torna cada vez mais necessário, até porque a OAB não permite a prospecção direta.

Por isso, cada vez mais advogados precisam pensar em suas estruturas para além da doutrina jurídica e de suas teses. Os clientes não leem teses nem qualquer outra coisa do universo jurídico e, no futuro, não vão buscar apenas horas de trabalho. Vão exigir eficiência, previsibilidade, tecnologia e valor mensurável.

O futuro do modelo da hora faturável

O método de cobrança também tende a mudar, ao menos em algumas áreas do Direito. A foi, durante décadas, a base econômica dos escritórios de advocacia. A inteligência artificial, porém, desafia justamente a premissa de que mais tempo dedicado a uma tarefa significa, necessariamente, mais valor entregue.

Sísifo, de Ticiano, em duotone azul: um homem musculoso carrega uma pedra enorme nos ombros, morro acima.
Sísifo empurra a mesma pedra pela eternidade. Cobrando por hora, teria a carteira mais estável da mitologia. O problema começa quando parte da subida passa a levar minutos. Ticiano, Sísifo, 1548–49 · domínio público

Se uma ferramenta consegue revisar documentos, identificar riscos, comparar contratos ou produzir a primeira versão de uma análise em poucos minutos, cobrar exclusivamente pelo tempo empregado fica cada vez mais difícil de justificar. Os clientes têm cada vez mais consciência de que o tempo necessário para executar um serviço já não é o mesmo de antes.

“A inteligência artificial desafia justamente a premissa de que mais tempo dedicado a uma tarefa significa, necessariamente, mais valor entregue.”

Isso não significa que a hora faturável desaparecerá de imediato. Mas o modelo tende a conviver com alternativas, como:

  • honorários baseados no ;
  • para serviços padronizados;
  • ;
  • remuneração por resultados ou etapas;
  • modelos híbridos, que combinam tecnologia, especialistas e provedores alternativos.

O ponto central é que os escritórios precisam explicar com mais clareza qual valor exclusivo entregam ao cliente e por que esse valor merece ser remunerado.

O que continuará sendo humano

Apesar do avanço tecnológico, vale considerar que nem as previsões de Tellmann nem o cenário jurídico brasileiro apontam para o desaparecimento do julgamento humano. Para ele, as sociedades continuarão precisando de regras, direitos, legitimidade, previsibilidade e mecanismos de resolução de conflitos.

O Pensador, de Rodin, em duotone azul: homem sentado, queixo apoiado na mão, em silêncio.
Rodin não pôs ferramenta nenhuma nas mãos do Pensador, só o problema. É a parte que, para Tellmann, continua humana: julgar, responder pelo que se decide e merecer confiança. Auguste Rodin, O Pensador, c. 1880 · foto CC0 do Met

Além disso, confiança, responsabilidade e sabedoria dificilmente serão reduzidas a uma ferramenta. Em decisões de grande impacto, os clientes continuarão buscando pessoas capazes de interpretar contextos, assumir responsabilidade e exercer discernimento.

O advogado que se limitar a executar tarefas repetitivas poderá enfrentar forte pressão. Já o profissional capaz de combinar conhecimento jurídico, visão de negócios, domínio tecnológico e julgamento estratégico tende a ganhar relevância.

“A pergunta mais importante não é se a IA substituirá os advogados.”

É outra. Ela fecha o texto.

A transformação virá dos clientes

A principal mensagem de Law in the Era of AI é que a transformação do Direito não será determinada apenas pelos escritórios. Ela será impulsionada pelos clientes, especialmente pelas empresas que estão reorganizando seus negócios em torno de dados, automação e inteligência artificial.

Nesse cenário, os escritórios precisarão repensar sua estrutura, seus preços, suas equipes e sua proposta de valor. Já os departamentos jurídicos terão de atuar como participantes centrais da transformação empresarial, equilibrando eficiência e risco.

A pergunta mais importante não é se a IA substituirá os advogados. É outra: quais atividades jurídicas continuarão sendo realizadas por humanos, quais serão executadas por máquinas e como as instituições jurídicas serão redesenhadas para preservar confiança, responsabilidade e legitimidade, fazendo com que o cliente enxergue esse valor?

A IA segue rendendo manchete. A transformação de verdade já está sentada na sua sala de espera, e chegou no horário.

Referências

Leve para segunda-feira

  • Uma frase. Escreva qual valor o seu escritório entrega e por que ele merece ser pago. Se não couber numa frase, o cliente também não vai entender.
  • Um serviço. Escolha um trabalho padronizado da casa e veja se ele cabe num preço fixo.
  • Uma previsão. Diga ao cliente quando e por onde ele vai ter notícia, antes que ele pergunte.
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E assunto não falta. A mediana é de

522

intimações por ano em nome do sócio principal. Cerca de 10 por semana. Cada uma é um movimento que o cliente quer entender. Se ninguém avisa, chega a pergunta das 07:03.

Como sabemos: mediana entre 2.580 escritórios com CNPJ, nas 27 UFs, das intimações publicadas no DJEN em nome do sócio principal. Fonte: DJEN/CNJ, 12 meses até 01/10/2026 · levantamento Follaw Up.

07:03 · uma semana depois
Cliente · WhatsApp07:03Vi o aviso de ontem. Obrigado, doutor.
Cena ilustrativa, composta a partir da rotina de escritórios. Sente-se.
  • As intimações publicadas no Comunica PJe chegam ao Follaw Up Processos sem ninguém precisar abrir o portal.
  • Movimentação nova chega em tempo real.
  • Nada entra no processo sem a sua aprovação.
  • Cada movimentação aprovada pode virar mensagem para o cliente pelo WhatsApp do escritório: o número de sempre ou o oficial da Meta, este nos planos PRO.

Milagre não fazemos. A intimação chega antes da pergunta.

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